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Prevenção na estrada

Por Bruno Marques, 03/25/2014 - 09:50
Caminhões parados

Os estradeiros mais antigos lembram com saudade de um tempo em que os níveis de violência não eram tão assustadores e ajudar um colega em dificuldades no trecho sem o medo de ser assaltado era coisa comum. Vivia-se um período de camaradagem, com solidariedade entre os colegas, ao invés da permanente desconfiança que faz com que cada um olhe de soslaio para o outro, precavendo-se de um eventual ataque, seja para surrupiar a carteira, o celular ou, em casos mais graves, o caminhão ou a carga. Além das precauções normais numa viagem, o carreteiro precisa, atualmente, estar atento aos locais onde abastecer ou pernoitar, um problema agravado com a Lei do Descanso, que faz com que os postos de combustíveis e pontos de paradas já fiquem lotados antes do anoitecer.

Com isso, conforme relata Alir João Rigon, 46 anos de idade e 14 de profissão, natural de Santa Rosa/RS, a situação do estradeiro é muito complicada, os ladrões estão em todas as partes e bem armados. Para ele, que viaja entre Uruguaiana/RS e Santiago do Chile, é uma preocupação a mais, principalmente na observação constante dos veículos que trafegam próximo ao caminhão por longos percursos ou nos pontos de paradas. “Onde tem muita mulher, não dá pra parar”, garante, embora ressalte que na maioria dos postos não é permitida a presença de prostitutas. Lembra a importância de – sempre que possível – viajar junto com outros colegas e, nos pernoites estacionar os caminhões sempre um ao contrário do outro, com a cabine paralela à carroçaria do colega. Assim, um cuida do outro, afirma. Alir João diz que, “graças a Deus nunca foi assaltado”, já precisou fugir – com um colega que dirigia outro caminhão – de dois veículos que tentaram assaltar numa rodovia na Argentina. Rodaram por mais de 50 quilômetros, conseguiram escapar, mesmo assim com um grande susto, conforme lembra. “Isso foi há uns cinco anos, mas parece coisa atual”, diz. Também já teve a caixa de alimentos arrombada diversas vezes, uma coisa já considerada corriqueira.

O autônomo Adelar da Silva Machado, 43 anos de idade e 20 de profissão, natural de São Borja/RS e vivendo em Xaxim/SC, viaja preferencialmente entre São Paulo e Chile, em percursos de até quatro mil quilômetros com uma carreta câmara fria e sempre acompanhado da esposa Jane Ouriques, 38 anos, o que faz com que tenha cuidados redobrados no trecho. Entre as precauções, evita parar nos acostamentos das rodovias e nos postos de combustíveis. Também evita estacionar próximo à pista, preferindo sempre um local mais isolado, porém seguro, já que o motor da refrigeração da câmara fria atrapalha o sono dos colegas motoristas durante a noite.

Adelar da Silva evita também parar logo após os postos de pedágio, por ser, segundo ele, local fácil de ser assaltado. Enfim, procura ter os cuidados normais e agir sempre com bom senso. Conta que já socorreu e foi socorrido por colegas na estrada em casos de problemas mecânicos com o caminhão, apesar dos riscos. Segundo ele, até agora, felizmente, nada de grave aconteceu na estrada em termos de segurança, a não ser acontecimentos pequenos, normais para quem está no trecho, como o recente furto de um computador, telefones celulares e outros objetos enquanto o caminhão era consertado em uma oficina de Uruguaiana. Ninguém se responsabilizou e ele ficou no prejuízo.

Precavido, o estradeiro Altamir de Bairros Estevo, o Chaveirinho como é conhecido pelos colegas, garante que não dá carona, não estaciona e nem para em lugares ermos ou em postos em que haja muita movimentação de “mulheres da vida”. Aos 61 anos de idade e 42 de profissão, natural de Porto Alegre/RS, ele também dirige uma carreta câmara fria entre os municípios da Serra gaúcha, Chile e Argentina, transportando frutas e carga geral. Diz nunca ter enfrentado problemas nas estradas. Acredita que 50% por sorte e 50% por cuidados nas viagens. Sempre planeja o itinerário e os locais de paradas para as refeições, abastecimento e pernoite. Dá preferência aos postos grandes, movimentados e com segurança, onde já conheça a rotina e os frequentadores. Também gosta de ouvir a opinião dos colegas sobre os locais seguros e de melhor atendimento. Quanto ao eventual auxílio a um colega em dificuldades na rodovia, garante que ajuda sempre que possível, nem que seja avisando a polícia.

Para o estradeiro Irineu Alceu Hein, 41 anos e 20 de boleia, natural de Ijuí/RS e dono de uma carreta graneleira, o grande problema em termos de segurança está em São Paulo, por onde evita trafegar à noite. Como é muito difícil encontrar lugar para pernoite nos postos, ele planeja a viagem com pontos de paradas em lugares conhecidos e seguros. Evita também pernoitar no Rio de Janeiro, por medida de segurança. Viajando entre Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso, Irineu Hein segue regras próprias de segurança, tais como nunca dar carona, parar apenas em lugares conhecidos e seguros, não trafegar à noite e estar sempre atento a veículos que eventualmente trafeguem por muito tempo próximo ao seu caminhão. Lembra de numa ocasião em que dois carros se posicionaram na frente e ao lado do caminhão e mandaram que encostasse, porque a tampa da carroçaria estaria aberta. Ele acelerou o bruto e foi seguido durante vários quilômetros. Nada aconteceu, mas tem certeza de ter escapado de uma tentativa de assalto. No mais, viaja sempre com muito cuidado e fé em Deus, afirma.

Pedro Moraes Ferreira Filho, 49 anos de idade e 27 de estrada, natural de Quaraí/RS, viaja apenas no território nacional. Para ele, o grande problema em termos de segurança são os postos próximos a barzinhos ou casas de prostituição. Pois, segundo ele, nestes locais há também drogas, ladrões e todos os tipos de criminosos. Por isso, antes de sair para a viagem, gosta de planejar bem o percurso, evitando também passar por São Paulo à noitinha, onde além de perigoso é muito difícil encontrar lugar para pernoitar, principalmente depois da vigência da Lei do Descanso. Como a maioria dos colegas, ele também não dá carona, evita falar sobre o conteúdo da carga transportada ou para onde está indo. Procura não deixar o caminhão sozinho por muito tempo e prefere viajar com dois ou três amigos que sigam a mesma rota.

Na opinião do carreteiro Altemir de Freitas Pinto, 45 anos de idade e 26 de profissão, natural de São Gabriel/RS, é difícil escapar da ação dos bandidos, mesmo com todas as precauções. Mesmo assim, garante ser extremamente cuidadoso e segue algumas regras que considera básicas na estrada, como não dar caronas, parar em lugares conhecidos ou indicados por amigos. Prefere trafegar junto de outros caminhões sempre que possível e em qualquer caso de dúvida ou alguma coisa suspeita, avisa a polícia. Altemir viaja apenas dentro do Estado do Rio Grande do Sul, com rotas mais ou menos definidas, mas nem por isso se descuida. “É preciso estar sempre atento”, acentua.

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